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Hoje fiquei perplexa com realidades bem diferentes… Num espaço de uns cinquenta minutos tive por perto dois adolescente com mais ou menos a mesma idade, isto é, com 18 anos, e com vidas completamente diferentes. Um deles, anda na universidade, já tem a carta, carro próprio, usa roupas de marca, à sua medida e ao seu gosto. Tem manias pelo seu cabelo e é vaidoso com o seu piercing na orelha. Dirigiu-se à caixa onde estava a trabalhar, e eu como uma simples operadora de caixa fiz o meu trabalho, atendi-o como todos os outros clientes, mas o meu ar espantado com aquela conversa que ele estava a ter ao telemóvel deixou-me completamente “desentendida com os jovens de hoje em dia”… Ele em pouco mais de três minutos repetiu cinco vezes ao telemóvel que tinha “100 euros para gastar na noite, que o pai lhe tinha dado”, dizia ele com um ar de contente, “vai ser uma noite para nunca mais esquecer”. Fiquei a pensar naquelas palavras do rapaz, daquela maneira como ele fala nos 100 euros. Da forma ridícula com que ele falava em gastar o dinheiro que o pai lhe tinha dado. Mas aquilo passou-se… continuei o meu trabalho e atendi mais umas duas dezenas de pessoas até que ficou um pouco parado em termos de clientes. Não tinha ninguém ali. Sentei-me a descansar um pouco as pernas, até que apercebo-me de um simples rapaz a aproximar-se da minha caixa, em tom baixo ele pergunta-me se pode vir à minha caixa. Eu levantei-me e com um ar de sorriso, “sim, claro que pode, Boa noite”… e recebo em troca um sorriso forçado e um “boa noite” em tom muito baixo. Vejo o rapaz a colocar todas aquelas coisas que ele trazia para pagar, aproxima-se de mim e diz...
- rapaz: “olhe, fazia o favor de me passar primeiro o leite, o pão, as latas de salsicha e de atum, o chocolate em pó e o pacote de manteiga para eu ver se o dinheiro que tenho chega.”
- operadora de caixa “eu”: “claro que sim.”
Passo as compras…
- operadora de caixa “eu”: “estas coisas dá um total de sete euros e quarenta e seis cêntimos.”
- rapaz: “obrigada, mas pode meter então mais os iogurtes, porque o resto eu já não tenho dinheiro que chegue, só tenho dez euros.”
- operadora de caixa “eu”: “sim, eu passo mais os iogurtes.”
Continuo com o meu trabalho, e depois de encerrar a conta e de proceder ao respectivo pagamento, digo em tom simples e reconfortante “Uma boa noite, tudo de bom”. E o rapaz num tom sofrido responde-me, “Sabe minha senhora, para hoje ainda tive dinheiro para comprar estas coisas para comer, agora para os outros dias é que já não tenho… isto está tão mau, já nem sei se é bom andar cá ao cima da terra, não à trabalho, toda a gente nos rouba, sobem tudo e dificultam cada vez mais a vida aos pobres e aos que ainda querem fazer alguma coisa por este país… mas é mesmo assim, os grandes é que sabem… olhe bom trabalho e estime-o até que o tem.”
Saíu de junto de mim e afastou-se, a contar os míseros cêntimos que lhe dei de troco.
Agora percebem porque dois rapazes com mais ou menos a mesma idade e com vidas tão diferentes. É destas realidades que tenho medo… destas oposições e destes desníveis sociais tão grandes. Por mais que tenha de separar os sentimentos do profissionalismo, este ultimo rapaz “tocou-me” e deixou-me a pensar tanto… Este país precisa tanto de levar uma volta. Não podemos deixar os nossos jovens todos sair do país, deixar os nossos jovens a cair assim nu abismo.
"Vamos acrediar nos nossos jovens."
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